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Sensações de poderes inexistentes

É impressionante como nos deixamos levar pelo básico: um ser humano se comportar como uma pessoa minimamente funcional. Não se trata de grandes valores morais ou éticos, mas apenas de dar à trivialidade o tratamento que ela merece. Na infância, eu era o melhor jogador de futebol da minha sala. No entanto, bastava abrir a janela para as outras turmas da escola, que nem era tão grande assim, e eu já me tornava só mais um. Quando cheguei a um clube de bairro, percebi finalmente que eu era apenas um operário na engrenagem. Eu fazia o básico e era por isso que ocupava aquela vaga. Se eu fosse realmente alguém acima da média, certamente não estaria aqui agora escrevendo estas linhas carregadas de rancor.

Na adolescência, adotei a guitarra como um hobby que carrego até hoje. Mergulhei na música e na teoria, mas minha mente já estava devidamente treinada para a ideia de ser apenas mais um no meio do povo. Aprendi cedo a não me levar tão a sério. Afinal, eu sou de Salvador, um lugar onde músicos de relevo brotam em cada esquina e a excelência artística é o normal. Aceitar a própria insignificância diante de gigantes permite que a diversão prevaleça sobre o ego. Manter uma relação antisséptica com aquilo que amamos torna tudo mais leve e nos protege das frustrações. É um desapego necessário.

Ao longo dessa jornada, o que mais encontramos são artistas lutando para manter as contas pagas através de seu ofício, o que possui um valor imenso. Mas existe também o tipo que acredita ser muito mais do que realmente é. Pessoas que se sentem especiais sem qualquer lastro na realidade. É aí que o entorno revela sua face e questionamos a base. Como esse indivíduo se desenvolveu em seu microcosmo? Terá passado a vida sendo bajulado por habilidades medianas até acreditar na própria lenda?

A realidade brutal da vida se manifesta com clareza em uma mesa de bar. Ali, no meio do ruído e da indiferença, ninguém está interessado em saber quem você pensa que é. O público pode até se entreter com sua apresentação em um barzinho xexelento qualquer, mas a maioria esquecerá seu nome antes mesmo da conta chegar. Ninguém quer ouvir sua poesia declamada na mesa ao lado enquanto tenta relaxar. Você não é especial.

Se você se destaca em um bairro ou em uma cidade pequena como Coimbra (nada pessoal), e apenas dentro daquela bolha, entenda as regras do jogo. Pague suas contas, aceite que você é um fracassado perante as grandes luzes do mundo e perceba que está tudo bem. Existe um poder em não ter que sustentar o peso de uma importância que nunca existiu. Você já sentiu que essa aceitação da própria mediocridade trouxe mais paz ou mais tédio para a sua rotina criativa?

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